O que mudou na educação digital nos últimos dez anos? 

Em 2015, quando a Conectar começou a trabalhar com formação de professores, as conversas sobre tecnologia na escola ainda eram incipientes. Poucas escolas olhavam para o desenvolvimento das competências digitais como parte da formação dos professores e dos estudantes.

Das competências digitais aos projetos com estudantes

Na época, usávamos como referência o Marco Europeu de Competência Digital, que reunia cinco áreas:

  • saber buscar e avaliar informações;
  • comunicar e colaborar em rede;
  • criar conteúdos digitais;
  • proteger dados;
  • resolver problemas com o uso da tecnologia.

Pode parecer básico hoje, mas não era. Em muitas escolas, a tecnologia ainda ficava restrita ao uso de equipamentos ou de ferramentas específicas. Nas formações, trabalhávamos com os professores para transformar aquelas competências em propostas que pudessem acontecer na sala de aula.

Com o tempo, outros assuntos entraram no debate. A educação mão na massa aproximou a tecnologia da criação e da resolução de problemas. As metodologias ativas trouxeram discussões sobre a participação dos estudantes, enquanto temas como equidade de gênero, segurança e privacidade começaram a aparecer com mais frequência nos projetos escolares. Esses assuntos também passaram a fazer parte do trabalho da Conectar.

Em diferentes escolas, desenvolvemos projetos nos quais os estudantes produziram podcasts, videocasts, simulações científicas, documentários e portfólios digitais. Em cada proposta, o ponto de partida era o que se pretendia ensinar. As ferramentas entravam quando contribuíam para a criação ou para a comunicação do que havia sido aprendido.

O que o ensino remoto deixou para as escolas?

Em 2020, o ensino remoto colocou professores e estudantes diante de outra realidade. As plataformas digitais passaram a fazer parte da rotina de praticamente todas as escolas, muitas vezes sem que houvesse tempo para discutir como utilizá-las.

Quando as aulas presenciais foram retomadas, ficaram algumas questões: quais recursos vale a pena manter? Como escolher uma tecnologia? O que ela acrescenta à aprendizagem?

A BNCC Computação foi homologada. E depois?

Em 2022, a homologação da BNCC Computação estabeleceu aprendizagens relacionadas ao pensamento computacional, ao mundo digital e à cultura digital que precisam fazer parte do currículo.

A publicação do documento, porém, não fez com que o tema fosse imediatamente compreendido e trabalhado pelas escolas. Ainda hoje, há equipes que conhecem pouco a BNCC Computação ou nem sabem que ela existe. Outras já desenvolvem atividades relacionadas às suas habilidades, mas não reconhecem essa conexão nem organizaram uma progressão entre os anos escolares.

Foi a partir desse cenário que a Conectar passou a trabalhar com formação de professores e consultoria para a implementação da BNCC Computação.

O primeiro passo costuma ser conhecer o que a escola já faz. Depois, é possível identificar o que precisa ser revisto, incluído ou articulado ao currículo.

Como a BNCC Computação aparece na prática?

Em uma atividade sobre o Sistema Solar, alunos do 5º ano criaram simulações digitais. Enquanto representavam os conteúdos estudados em Ciências, precisavam construir sequências de comandos, testar soluções e corrigir problemas.

Em outro projeto, estudantes do 4º ano produziram podcasts e participaram desde a análise de programas existentes até a gravação e a edição dos episódios.

Como a inteligência artificial entrou nessa conversa?

Em 2023, as ferramentas de IA generativa começaram a se tornar conhecidas. Isso não significa que as escolas estivessem pensando em incorporá-las ao trabalho pedagógico.

A IA chegou primeiro pelo uso que os alunos já faziam fora da escola ou por situações que exigiam uma resposta da equipe: trabalhos produzidos com ferramentas generativas, dúvidas sobre autoria, informações inventadas e receio de que os estudantes deixassem de pensar por conta própria.

A Conectar incorporou o tema às formações e aos trabalhos com alunos, sempre relacionado ao que já discutíamos sobre competências digitais, educação midiática e autoria.

Como a IA aparece nos projetos com estudantes?

Em uma atividade sobre as ditaduras militares na América Latina, estudantes do 9º anos usaram a IA como assistente para a criação de narrativas digitais. Formularam prompts, compararam respostas, selecionaram informações e decidiram como apresentar o que haviam estudado.

Em outro projeto, alunos criaram colagens digitais para comunicar aspectos de sua identidade e de seus projetos de vida. A IA participou da produção das imagens, enquanto as decisões sobre o que dizer, quais elementos escolher e como representar cada trajetória permaneceram com os estudantes.

Entre os documentos e a prática da escola

Nos últimos anos, foram publicados documentos, referenciais e normas que tratam da BNCC Computação, da inteligência artificial, da educação digital e da proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.

Muitos desses materiais ainda são pouco conhecidos pelas equipes escolares. Mesmo quando chegam à direção ou à coordenação, não é simples entender o que muda na prática, o que precisa ser priorizado e como transformar uma orientação geral em uma proposta pedagógica adequada a cada idade.

Uma parte importante do trabalho da Conectar está justamente aí. Acompanhamos o que está sendo discutido e publicado, estudamos esses materiais e organizamos as informações para trabalhar com as escolas em sua implementação. Isso pode envolver a revisão do currículo, a formação dos professores, a criação de projetos com estudantes ou a definição de critérios institucionais.

A linha do tempo que acompanha este artigo reúne alguns dos temas que marcaram os últimos dez anos. Quando olhamos para eles em conjunto, percebemos que os assuntos foram se acumulando. As competências digitais discutidas em 2015 continuam necessárias para avaliar uma resposta gerada por IA, reconhecer uma informação falsa, proteger os próprios dados ou produzir um conteúdo responsável.

Para cada escola, o trabalho começa em um ponto diferente. Algumas precisam conhecer as orientações existentes. Outras precisam organizar iniciativas que já acontecem em diferentes segmentos. Há também aquelas que já começaram esse movimento e agora buscam dar continuidade ao que foi construído. Entender esse ponto de partida é o que permite definir os próximos passos.

Perguntas frequentes sobre educação digital nas escolas

O que a BNCC Computação estabelece?

A BNCC Computação estabelece aprendizagens relacionadas ao pensamento computacional, ao mundo digital e à cultura digital. Essas aprendizagens precisam ser organizadas no currículo e desenvolvidas ao longo das diferentes etapas escolares.

Por onde uma escola pode começar a implementar a BNCC Computação?

O primeiro passo é identificar o que a escola já realiza. A partir desse levantamento, a equipe pode reconhecer quais habilidades já aparecem nos projetos, o que precisa ser incluído e como organizar uma progressão entre os anos escolares.

Como a inteligência artificial pode ser usada em projetos com estudantes?

A IA pode participar como assistente em processos de criação. Nos projetos apresentados neste artigo, os estudantes analisaram os resultados, fizeram escolhas e decidiram como comunicar o que haviam aprendido. A ferramenta não substituiu a autoria nem o conhecimento dos alunos.

Por que as competências digitais continuam importantes?

Elas ajudam estudantes e professores a avaliar informações, comunicar ideias, criar conteúdos, proteger dados e tomar decisões sobre o uso das tecnologias. Essas capacidades também são necessárias para lidar de forma crítica com a inteligência artificial.

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