Foi com essa pergunta que o 7º ano iniciou a disciplina Inteligência Artificial: Narrativas do Futuro. A partir de mitos e verdades sobre a IA, os alunos estudam temas que atravessam nosso tempo, como sustentabilidade, desinformação e saúde mental, para compreender como as tecnologias interferem na vida em sociedade.
E foi essa experiência que a Natalia Rossi, sócia da Conectar e responsável pelo projeto, contou na palestra “Quando a IA entra na sala de aula”, no II Congresso ABEPAR. Natalia mostrou como a inteligência artificial pode fazer parte do currículo como objeto de estudo e também como recurso para criações.
Você deve estar se perguntando: “Mas como isso acontece na sala de aula?”
Acho que um exemplo ajuda a visualizar melhor.


Em uma das atividades, os estudantes trabalham em duplas diante de uma imagem. O desafio é escrever um prompt para que uma ferramenta de IA generativa produza algo semelhante. A primeira tentativa nem sempre funciona como eles esperam. Então, começam os ajustes: mudam palavras, acrescentam detalhes, comparam resultados e observam erros e distorções.
A atividade permite compreender, na prática, que o resultado não surge por mágica. Ele depende dos dados usados no treinamento da ferramenta, das instruções fornecidas e de várias decisões humanas. Os alunos reúnem os prompts e as imagens em um mural colaborativo e registram suas reflexões e produções em um portfólio digital. Assim, o processo de aprendizagem continua visível, inclusive quando o resultado final parece pronto.
Que outras perguntas a IA leva para a sala de aula?
Ao longo da disciplina, a pergunta inicial se desdobra em outras: como os algoritmos interferem no que vemos nas redes? Por que uma IA pode reproduzir vieses e preconceitos? Como reconhecer uma informação falsa? Quais são os impactos ambientais e emocionais do uso dessas tecnologias? A partir dessas questões, os alunos investigam assuntos presentes em sua vida cotidiana.
Os hábitos digitais da própria turma também entram na conversa. Como cada um usa a IA no dia a dia? Por que as redes sociais mostram certos conteúdos e escondem outros? O que faz uma informação parecer confiável? Em atividades como Fake ou Fato?, analisam publicações, verificam informações e discutem o que é preciso observar antes de compartilhar um conteúdo.
Quando o assunto é o impacto ambiental da IA, pesquisam o consumo de energia e o uso de água envolvidos no funcionamento dessas tecnologias. Depois, transformam o que descobriram em textos no formato Você sabia? e discutem de que maneira a IA também pode contribuir para otimizar recursos.



Mas o que acontece quando a IA tenta representar uma pessoa?

É essa a pergunta que orienta Espelhos de Código. Cada estudante se descreve para uma ferramenta de IA, que cria um autorretrato a partir das informações fornecidas. Depois, os alunos comparam as imagens geradas com suas descrições e observam o que a ferramenta conseguiu representar — e o que ficou de fora. A partir daí, surgem conversas sobre identidade, diversidade e os padrões usados pelas máquinas para representar cada pessoa.
A literatura também ajuda a ampliar essa discussão. Depois de ler o conto “Andando em Círculos”, do escritor Isaac Asimov, e conhecer as Três Leis da Robótica, os alunos recebem um novo desafio: escrever uma quarta lei. Para decidir o que incluir, os alunos precisam pensar nas responsabilidades e nos limites que deveriam orientar o funcionamento das máquinas. Assim, percebem que as tecnologias não seguem um caminho definido por conta própria. Há sempre escolhas humanas envolvidas em sua criação e em seu uso.


E o que os estudantes criam a partir dessas discussões?
As perguntas levantadas durante as aulas ganham forma em produções com diferentes linguagens. Os alunos criam colagens sobre os futuros que desejam, completam a pergunta E se…? com cenários possíveis e participam de um desenho coletivo chamado Linhas do nosso futuro.
Em Vozes Sintéticas, Sentidos Humanos, cada grupo escolhe uma questão estudada na disciplina e a transforma em música. Os alunos escrevem a letra e usam ferramentas de IA para criar a melodia. Durante o processo, pesquisam, escrevem juntos, experimentam possibilidades sonoras e decidem o que deve ser mantido, modificado ou descartado.
A atividade também ajuda a perceber a participação da IA e dos estudantes em cada etapa. A ferramenta amplia as possibilidades de experimentação, enquanto os alunos escolhem o tema, definem a mensagem e respondem pelo que a canção comunica.
Ao final, as músicas se juntam aos textos, às imagens e aos registros feitos ao longo da disciplina em uma mostra aberta à comunidade escolar. Pais, professores e outros estudantes podem conhecer tanto as produções quanto as perguntas e escolhas que fizeram parte de sua criação.
Como o trabalho avança no 8º e no 9º anos?
Nos anos seguintes, os projetos ganham novos desafios e os estudantes passam a trabalhar com mais autonomia. Durante a palestra, Fabio Silveira apresentou algumas dessas experiências.
No 8º ano, os estudantes aprendem sobre globalização enquanto criam um jogo de tabuleiro em um projeto interdisciplinar. Eles usam plataformas colaborativas para organizar o trabalho e recorrem à IA durante a criação, sempre discutindo o que a ferramenta acrescenta ao projeto e quais decisões continuam sob a responsabilidade do grupo.
No 9º ano, a conversa se aproxima ainda mais da vida digital dos adolescentes. Os alunos experimentam diferentes formas de escrever prompts e criam agentes de IA personalizados para o estudo. Depois, reúnem textos, imagens, áudios e vídeos em um e-book sobre práticas responsáveis no uso da inteligência artificial.
Quando a gente olha para o trabalho do 7º ao 9º ano, é possível perceber uma progressão. Primeiro, os estudantes investigam como a IA funciona e de que maneira ela interfere na vida em sociedade. Nos anos seguintes, passam a usar esses recursos em projetos mais complexos, com mais autonomia e atenção às questões de autoria, ética e responsabilidade.
Por que a inteligência artificial precisa fazer parte do currículo?
Os adolescentes já convivem com sistemas que recomendam vídeos, escolhem o que aparece nas redes sociais, respondem a perguntas e geram textos e imagens. E tudo isso acontece dentro e fora da escola. Quando a conversa fica restrita ao que pode ou não pode ser usado, perdemos a oportunidade de ajudá-los a compreender o ambiente digital do qual já fazem parte.
Mas colocar a inteligência artificial no currículo envolve várias decisões. O que faz sentido trabalhar em cada idade? O que os alunos precisam saber antes de usar uma ferramenta? Como acompanhar o processo e preservar a autoria? Essas escolhas precisam estar no planejamento, assim como o tempo para que os professores estudem, experimentem e construam propostas em conjunto.
Essas decisões nos levam a uma questão mais ampla, que também apareceu no II Congresso Abepar. Na conferência de encerramento, Charles Fadel retomou uma pergunta que há anos acompanha o debate educacional: se as tecnologias mudam o trabalho, o acesso ao conhecimento e a produção de informação, o que continua valendo a pena ensinar?
Quando a gente olha para a experiência apresentada pela Natalia, essa pergunta chega à sala de aula. Os alunos usam ferramentas de IA enquanto aprendem a observar como elas funcionam e o que interfere nos resultados. Para avaliar uma resposta, perceber uma distorção ou decidir o que fazer com aquilo que a ferramenta produziu, eles precisam de conhecimento. É isso que permite fazer melhores perguntas e não aceitar como pronto e verdadeiro tudo o que aparece na tela.
Na Conectar, esse trabalho começa pelas perguntas que cada escola precisa enfrentar. A partir delas, construímos currículos, desenvolvemos projetos com os estudantes e realizamos formações com os professores. Cada proposta considera a realidade da escola, a idade dos alunos e o que se pretende ensinar.
O que Charles Fadel ajuda a perceber nessa experiência
Fadel propõe que a educação seja pensada a partir de quatro dimensões: conhecimento, habilidades, caráter e metacognição. Na sala de aula, essas dimensões aparecem misturadas. Para analisar uma resposta da IA, o estudante precisa conhecer o assunto, formular perguntas, verificar informações e reconhecer os limites do que sabe. Também precisa considerar as consequências de suas escolhas e observar como chegou a determinada conclusão.
É isso que acontece quando a turma compara versões de um prompt, identifica uma distorção em uma imagem, questiona se uma informação é verdadeira ou registra no portfólio o que mudou em seu modo de pensar. O conhecimento continua necessário. Ele oferece referências para que o estudante possa julgar o que a máquina apresenta, acrescentar contexto e tomar decisões.
A criação das músicas também ajuda a entender essa relação. Uma ferramenta pode gerar uma melodia rapidamente. Ainda assim, a turma precisa ter algo a dizer. Imaginar um futuro desejável, discutir medos e possibilidades e transformar essas ideias em uma letra depende da experiência, da sensibilidade e do repertório dos alunos.
Por que a inteligência artificial precisa fazer parte do currículo
Os estudantes já convivem com sistemas que recomendam vídeos, selecionam conteúdos, respondem perguntas e produzem textos ou imagens. Se a escola restringe a conversa ao uso permitido ou proibido, deixa de trabalhar questões que ajudam os alunos a compreender o ambiente digital em que vivem.
Incluir a inteligência artificial no currículo exige escolhas pedagógicas: o que faz sentido em cada idade, quais conhecimentos precisam ser construídos antes do uso de uma ferramenta, como preservar a autoria e de que maneira registrar o processo. Também exige tempo para que os professores experimentem, estudem e planejem juntos.
A experiência apresentada no Congresso Abepar mostra uma possibilidade concreta. Os alunos aprendem sobre IA enquanto pesquisam, criam, conversam e revisam o próprio pensamento. A tecnologia está presente, mas as perguntas pedagógicas organizam o trabalho.
Na Conectar, trabalhamos com escolas na construção de currículos, em projetos com estudantes e na formação de professores. Cada proposta parte da realidade da escola, da idade dos alunos e das aprendizagens que se pretende desenvolver. Se sua escola está definindo como trabalhar a inteligência artificial, agende uma conversa com a gente.
Perguntas frequentes
Por que ensinar inteligência artificial no 7º ano
Porque os estudantes dessa faixa etária já convivem com algoritmos e ferramentas de IA em atividades escolares e na vida digital. A escola pode criar condições para que compreendam esses sistemas, reconheçam riscos e façam escolhas mais conscientes.
Ensinar a escrever prompts é suficiente?
A elaboração de prompts é uma parte do trabalho. A formação também envolve verificar informações, analisar vieses e impactos, compreender limites, registrar decisões e assumir responsabilidade pelas produções realizadas com IA.
Como preservar a autoria dos estudantes
A autoria fica mais visível quando a escola acompanha o processo. Prompts, versões intermediárias, registros no portfólio e justificativas sobre as escolhas ajudam a mostrar o que o aluno pesquisou, pensou, modificou e decidiu apresentar.
A inteligência artificial precisa ser uma disciplina específica
A experiência apresentada por Natalia acontece em uma disciplina dedicada ao tema. Ela mostra a importância de definir objetivos, conteúdos e uma progressão adequada à idade. Esses critérios também podem orientar projetos interdisciplinares e atividades desenvolvidas em outros componentes curriculares.

