Ontem saímos da Aletheia com o desafio de transformar a escola em uma metáfora que nos fizesse sentido.

Coração pulsante.

Talvez seja essa a visão que tenho sobre a educação. Não apenas pela paixão que sinto pela profissão, mas por ela ser a base que sustenta tudo.

Ela que bombeia diferentes ferramentas que permitem um bom desenvolvimento, tanto humano quanto cognitivo.

É o coração que pulsa, espalhando essas ferramentas pelas veias, tocando as pessoas, permitindo mudar um pouco o mundo.

Pensando sobre isso, refleti sobre a importância das intervenções docentes, tanto verbais, quanto físicas e, não menos importante, a criação de situações que possibilitem diferentes desenvolvimentos e descobertas sem intervenções. E foi exatamente com base nessa minha inquietação (e, sobretudo, paixão) que foquei meu olhar.

Ao chegar hoje na escola, me deparei com proposital baixa luminosidade na sala, com pequenas luminárias focando nos espaços em que estavam montados os cantos que recebiam as crianças pela manhã. Uma música suave e em volume baixo completava esse espaço com total delicadeza.

aletheia02Um pouco de argila separada em pequenos blocos sobre suportes de madeira, teclados e telefones dispostos em uma mesa retangular e uma construção feita com sobreposições de blocos de madeira e tampas de plástico em cima de um caixote de madeira.

Algumas crianças já estavam na sala, com toda a energia que se pode esperar de crianças de 4 anos às nove horas da manhã.  Durante a brincadeira, reconstruíam o espaço, mudando alguns móveis de lugar, empurrando alguns brinquedos e colocando outros no chão. Dentro daquele caos organizado, os meninos mudam de brincadeira e outras crianças começam a ocupar o espaço, o que leva à primeira intervenção do dia:

–  Chicos, mirá cómo está el suelo. Ustedes llegaron temprano y no encontraron los materiales así.

(UM DOS MENINOS VOLTA A BRINCAR E O OUTRO COMEÇA A SE AFASTAR DAQUELE ESPAÇO, FAZENDO A PROFESSORA CHAMÁ-LOS NOVAMENTE)

–  Mirá que estoy contando algo importante a vos

–  Si, lo sabemos

–  Creen que a los amigos que estan llegando les gusta encontrar toda la clase con los materiales espajados?

–  No les van a gustar

(OS MENINOS LOGO COMEÇAM A REORGANIZAR O ESPAÇO E OS MATERIAIS QUE NÃO ESTAVAM MAIS USANDO, SEM QUE A PROFESSORA PRECISASSE DIZER MAIS NADA)

Percebo certa movimentação na escola e vejo que está no horário da chegada das crianças do jardín. As duas professoras da sala começam a receber as crianças com um beijo e um leve abraço, que logo saem e começam a explorar o espaço, o que me leva de volta a ideia de espaços que falam e abrem possibilidades sem intervenções.

Neste momento, uma das professoras, que chamaremos de S para preservar sua identidade, nota que uma das meninas está de galocha e a chama para conversar:

S. – Como você está? Você não me deu beijo, vem cá…

(A MENINA VAI ATÉ S)

S. – Como foi ontem?

Criança 1 – Bem (dá um beijo no rosto da professora).

S.– Hoje você vai ficar a tarde para o futebol, certo?

C1. – Sim

S. – E você trouxe outro sapato?

C1. – Acho que não

Criança 2 – Assim você pode cair!

S. – Se você sentir que esta bota está te atrapalhando você me avisa que a gente liga para o papai e para a mamãe trazerem outro, ok?

 

O momento de recepção das crianças se estende e elas continuam a brincar. Durante as brincadeiras, mantive meu foco nas intervenções das professoras, portanto vou contextualizar e descrever algumas cenas que observei neste primeiro momento dos cantos. Essas descrições, apesar de terem embutidas as minhas concepções, tendem a ser livres de interpretações e julgamentos, trazendo apenas uma descrição do que pude observar.

 

Cena 1

Um pequeno grupo de meninas se organiza em roda no chão e pegam alguns materiais não estruturados da estante. Separam os materiais por estilo e começam uma construção. A professora passa ao lado e comenta que está muito lindo o que fizeram, questionando o que é e descobre que é uma casa com um caminho que leva ao rio. Alguns aletheia01meninos começam a desconstruir essa casa e uma das meninas procura a professora:

C1. – Os meninos estão destruindo nossa brincadeira

S. – Se vocês não estão gostando, precisam falar com eles.

C1. – Não posso acreditar que estão fazendo isso (fala baixinho)

S. – Fala mais firme

C1 – NÃO POSSO ACREDITAR que estão fazendo isso (diminuindo o tom de voz no final)

S. – Vocês perceberam que elas estavam brincando aqui?

C2. – Sim

S. – Então por que continuam fazendo isso?

C2. – Desculpa (saem para brincar em outro espaço)

 

A professora fala baixo com as crianças e com muita sutileza. Percebo que há muita conversa e pouca (não observei nenhuma) repreensão. Antes de voltar ao que estava fazendo, encostou em uma das Sentar-em-Wmeninas que estava sentada na roda e pediu para que organizasse melhor as pernas, porque aquele jeito não fazia bem para as pernas. (a menina que estava sentada em W, sentou-se com as pernas cruzadas).

 

Cena 2

A professora sai da sala com uma criança que deixou escapar o cocô e volta conversando com ela e a outra professora

J.(professora) – Como você se sente, “mí amor”?

C1. – Um pouco bem

S. – E o outro pouco?

C1. – Mal, estou com diarréia.

S. – Você começou com essa dor na barriga aqui na escola ou em casa?

C1. – Em casa.

S. (falando com J) – Ligamos para os pais?

J. – Pergunta para ele o que ele prefere.

S. (falando com a criança) – Você quer ligar para a mamãe e para o papai e ver o que eles falam ou você se sente bem para brincar com os amigos?

C1. – Quero ligar para a mamãe…

S. – Bom, vou ligar para ela então

(ALGUNS MINUTOS DEPOIS)

S. – Liguei para o papai e para a mamãe, mas não atenderam. Logo eles devem ligar para a escola, tá bem? Quer brincar um pouco enquanto isso?

(A CRIANÇA DIZ QUE SIM E LOGO SE AFASTA PROCURANDO OS AMIGOS)

Me chamou bastante atenção a conversa entre as professoras, pensando sobre o que fazer nesta situação, sobretudo quando uma fala para a outra que essa decisão deve ser tomada com a criança.

 

Cena 3

Uma menina chega, observa a sala e logo se aproxima da professora

 

C1. – Quero fazer algo “que sea bien”

S. – E como seria algo assim?

C1. – Algo para que todos sejam felizes

S. – E o que a gente pode fazer para deixar todo mundo feliz?

C1. – As vezes los niños choram.

S. – Mas você estava falando sobre deixar eles felizes. O que podemos fazer para isso?

C1. PERMANECE EM SILÊNCIO

S. – O que você está pensando? O que te faz feliz?

C1. – Quando minha mãe me trata bem..

S. – É verdade, isso deixa a gente feliz, mas, e aqui na escola, o que te deixa feliz?

C1. – Brincar com todo mundo

A professora não se estende muito ao ouvir o relato da criança sobre a relação com a mãe e mantém o foco na ideia principal que foi trazida pela criança: fazer algo legal. Não perguntei para ela o motivo de seguir o rumo inicial da conversa, mas acredito que valeria um investimento para tentar descobrir o porquê da criança ter trazido essa situação de repente, sobretudo porque envolve uma relação com a situação familiar.

Praça

Com estas cenas, volto à minha metáfora anterior: o coração pulsante. A educação tem esse espaço e poder de transformar as pessoas, ou, ao menos, tocá-las um pouco. As intervenções realizadas pela professora, a conversa branda, a escuta atenta e a preocupação real com o que a criança tem a dizer me remeteram rapidamente ao coração.

Essas palavras ditas com cautela e acolhimento permeiam as veias e fazem com que todo o processo educativo siga pelo mesmo caminho.

Natália Rossi

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